A farra dos prefeitos – Por Linaldo Guedes

Por Fonte83 - 03/10/2023

Na época do Império Romano era comum a estratégia do pão e circo, ou “panis et circensis”, como cantaram os tropicalistas no final dos anos 1960. A estratégia era usada pelos líderes romanos para diminuir as tensões sociais e conquistar o apoio da população, oferecendo comida e diversão. O “pão”, no caso, se referia às distribuições de cereais, e o “circo” aos eventos esportivos e artísticos, como as lutas de gladiadores.

            Tanto tempo se passou e a prática continua sendo comum, principalmente na administração pública brasileira. Municípios com baixíssimas cotas de FPM e poucos investimentos nas áreas de saúde e educação, continuam adotando a política do império romano. E fazem festas com atrações musicais de peso cujo cachê dos artistas por uma apresentação de duas horas paga a folha de servidores públicos da gestão, com sobras. Depois vão aos jornais e sites de notícias chorar pela queda na cota do FPM ou pela pouca arrecadação no ICMS.

            Na semana passada, o Tribunal de Contas do Estado divulgou relatório em que aponta que os dispêndios com festas juninas promovidos, este ano, por 202 municípios paraibanos chegaram a R$ 54.237.265,90. Em comparação com o ocorrido no exercício de 2022, essas despesas indicam a elevação de 20,70%. Mais do que isso! O documento mostra que em 61 cidades, houve “aumentos não justificados desses gastos”. Em outras 130, as festividades ocorreram em período de calamidade pública reconhecido por decreto estadual. Os auditores constataram, além disso, que a situação de déficit orçamentário não impediu a realização dessas festas em 114 municípios. Em 177 deles, ocorria, na ocasião, o não cumprimento integral ao piso nacional do Magistério.

            Para que tanta festa bancada pelo dinheiro público? E bancada em municípios com grandes deficiências em investimentos sociais. Alguns vão alegar que essas festas geram emprego e renda. Sim, durante o período que acontecem. E no restante do ano? Não seria mais lógico pegar o dinheiro gasto com essas festas e aplicar na geração de emprego e renda o ano todo, e não apenas por um período? Penso que já está na hora do Congresso Nacional aprovar uma lei proibindo a realização de tais eventos pelo poder público, como fizeram ao proibir os showmícios em períodos eleitorais. A política do pão e circo só acaba mesmo por força da lei neste país. Enquanto isso não acontece, continuaremos assistindo municípios comemorando seus baixos índices de IDH ao som do último parangolé da mídia. Bancados pelo povo, claro.